O Jornalismo Em Sociedade e a Massificação De Conteúdos
Resumo
Utilizando como base os textos de Theodor Adorno sobre A indústria cultural: o esclarecimento como massificação das massas, unindo com a ideia de Herbert Blumer abordando o tema de Como funciona a massa, o público e a relação com a opinião pública e a análise sobre a comunicação de massa por John Thompson, discute-se como o jornalismo e as mídias deixaram de ser utilizados para informações relevantes e passaram a ser transformadores de sociedades de forma que no século em que vivemos as informações recebidas por meios não confiáveis podem moldar maleficamente a mente humana e/ou contribuir para a regressão da sociedade.
1. Contextualização
Adorno e Horkheimer, em sua análise sobre a indústria cultural, desenvolvem um estudo que aborda a cultura contemporânea, de forma que esta pesquisa analisará o “ar de semelhança” entre as criações midiáticas atuais, como descrito no artigo:
“Cada sector é coerente em si mesmo e todos são em conjunto” (ADORNO; HORKHEIMER).
Blumer define o que é a massa e discorre sobre comportamentos da massa, propaganda de massa etc. Combinando suas ideias com as de Adorno e Horkheimer, a ideia de controle da sociedade através das mídias ganha força, trazendo a noção de uma sociedade manipulável e do proveito capitalista que utiliza o entretenimento para tal. Suas análises trazem ideias realistas e atuais.
Thompson, por outro lado, aborda a importância do desenvolvimento da imprensa, fazendo um estudo aprofundado e apresentando citações de Habermas.
Portanto, o objetivo é explorar e discorrer principalmente sobre as análises dos autores citados, de forma que se possa compreender o poder que a massificação de conteúdos como entretenimento, notícias e informações pode ter, tanto em seus pontos positivos quanto negativos.
2. Discussão teórica
A massificação de conteúdos está diretamente ligada ao jornalismo em sociedade, pois afeta tanto a forma como o jornalismo de fato acontece e evolui, quanto a forma como a sociedade se comporta no decorrer dos anos.
Para melhor compreender do que se trata a massificação, Blumer a define como
“um grupo coletivo, elementar e espontâneo e em muitos aspectos semelhante à multidão e fundamentalmente diferente em outros sentidos” (BLUMER).
A sociologia de Blumer identifica mudanças drásticas de comportamento de acordo com a forma como nos agrupamos. Não somos apenas indivíduos; a partir do momento em que vivemos em sociedade, ganhamos características que moldam nossa forma de pensar e viver.
Dessa forma, ele define três tipos de “espécies de divisão”: Multidão, Público e Massa.
Multidão: para isso, as pessoas precisam estar no mesmo lugar, na maior parte em modo de agitação, fazendo com que a emoção fale mais alto que o estado racional, levando à perda de senso crítico. O movimento se dá pelo estímulo que o indivíduo recebe no local em que está inserido: medo gera medo, raiva gera raiva e afeto gera afeto.
Público: uma definição simples é vê-lo como um grupo organizado ao redor de um problema, de forma que a plateia não age passivamente, mas sim com lugar de fala. Nesse grupo há o estímulo, a interpretação e, ao final, a resposta, diferente da multidão, em que a interpretação é ignorada e, do estímulo, já se passa diretamente à resposta.
Blumer, ao falar do público, escreve:
Consideraremos o público como o último agrupamento elementar coletivo. O termo público é usado para designar um grupo de pessoas: a) que estão envolvidas em uma dada questão; b) que se encontram divididas em suas posições diante dessa questão; e c) que discutem a respeito do problema (BLUMER, A massa, o público e a opinião pública, p. 181)
O que define o público é a tomada de decisão em conjunto.
Massa: por fim, essa espécie é composta de indivíduos de todas as classes sociais, que podem estar fisicamente separados, mas reagem aos mesmos eventos e situações, sem interagir entre si. Pode ser definida como a espécie que vive no anonimato e tem escolhas individuais, sem necessidade de se conhecerem e sem interação física.
Blumer afirma:
Nas condições da moderna vida urbana e industrial, o comportamento de massa surgiu com amplitude e importância crescentes. Este fato se deve sobretudo à influência de fatores responsáveis pelo distanciamento havido entre as pessoas e seus ambientes de culturas e grupos locais. Migrações, mudanças de residência, jornais, filmes, rádio, educação — constituem elementos que atuaram no sentido de arrancar os indivíduos de seus ancoradouros habituais e impeli-los em direção a um mundo novo e mais amplo. Diante deste mundo, os indivíduos têm sido levados a se ajustarem com base em escolhas amplamente pessoais. A convergência de suas escolhas tornou a massa uma influência poderosa. Muitas vezes, seu comportamento assemelha-se ao da multidão, sobretudo em condições de excitação. Outras vezes, parece influenciado por apelos sedutores que aparecem em jornais e estações de rádio — apelos que atuam sobre impulsos primitivos, antipatias e aversões tradicionais. Este fato não deveria eliminar a possibilidade de que a massa possa comportar-se sem o arrebatamento da multidão. A massa pode ser muito mais influenciada por um artista ou um escritor que consegue perceber seus sentimentos difusos, expressá-los e configurá-los de maneira articulada. (BLUMER, A massa, o público e a opinião pública, p. 180)
Para o autor, uma sociedade realmente saudável depende de um público vibrante. Não se deve deixar que o indivíduo aja isoladamente, mas também não se deve permitir que ele se deixe levar apenas pela emoção, como no estado de multidão. Deve haver análise e discussão para que as decisões sejam tomadas de forma inteligente, e não de modo irracional, apenas de acordo com estímulos midiáticos.
Com as considerações de Blumer, tendo definido como a sociedade se comporta individualmente e em conjunto, Adorno e Horkheimer fazem uma análise sobre a indústria cultural.
É conhecida a opinião de diversos sociólogos sobre o caos cultural, que teria ocorrido devido à dissolução dos últimos resíduos pré‑capitalistas, à diferenciação técnica e social e à extrema especialização.
Porém, os autores definem isso como uma grande ilusão sistêmica. Adorno e Horkheimer apontam:
A unidade evidente do macrocosmo e do microcosmo demonstra para os homens o modelo de sua cultura: a falsa identidade do universal e do particular. Sob o poder do monopólio, toda cultura de massas é idêntica, e seu esqueleto, a ossatura conceitual fabricada por aquele, começa a se delinear. Os dirigentes não estão mais sequer muito interessados em encobri-lo, seu poder se fortalece quanto mais brutalmente ele se confessa de público. O cinema e o rádio não precisam mais se apresentar como arte. A verdade de que não passam de um negócio, eles a utilizam como uma ideologia destinada a legitimar o lixo que propositalmente produzem. (ADORNO; HORKHEIMER, A indústria cultural: o esclarecimento como mistificação das massas, p. 57)
Ou seja, “tudo é igual”: a fórmula de tudo é a mesma, pois é aquilo que se vende.
Dessa forma, produções audiovisuais, por exemplo, fazem uma “imitação cômica” da realidade, levando o espectador a uma fuga de sua vida pesada de trabalho e à identificação com o personagem que sofre trabalhando, fazendo com que seu cérebro associe e sinta um leve alívio momentâneo.
Essa fórmula é tão poderosa que indústrias inteiras acabam por seguir o mesmo roteiro, de acordo com sua categoria. O padrão sempre é o mesmo, levando as pessoas a nunca fazerem esforços intelectuais por si próprias.
Tudo vem “mastigado” e o ser humano acaba por ser dominado sem ao menos se dar conta. Quando se perde a capacidade de pensamento crítico, aceitar o que não deveria ou menos do que o básico acaba passando despercebido.
O ser humano passa a ser como um molho de chaves que abrem a mesma porta: são todas iguais e levam para o mesmo lugar. Características físicas, como cor de cabelo e dos olhos, acabam sendo a única coisa que os diferencia. O homo sapiens agora é controlado sem perceber; sente-se único, mas na realidade é igual a todos os outros e pensa da mesma forma, sem nem perceber.
Os autores afirmam:
A indústria cultural realizou maldosamente o homem como ser genérico. Cada um é tão somente aquilo mediante o que pode substituir todos os outros: ele é fungível, um mero exemplar. Ele próprio, enquanto indivíduo, é o absolutamente substituível, o puro nada, e é isso mesmo que ele vem a perceber quando perde com o tempo a semelhança. (ADORNO; HORKHEIMER, A indústria cultural: o esclarecimento como mistificação das massas, p. 69)
Thompson faz uma crítica à análise de Habermas, reconhecendo sua importância, mas colocando em pauta pontos que Habermas não levou em consideração, como, por exemplo, a exclusão da classe trabalhadora e a exclusão das mulheres em relação à esfera pública.
Habermas tinha preocupação com o espectador se tornar um “zumbi”, um ser passivo que não critica nada do que vê.
Thompson responde:
Há alguma substância na tese da refeudalização da esfera pública? Certamente ela tem alguma plausibilidade razoável. Ao longo do século XX, e especialmente desde o advento da televisão, a orientação da política se tornou inseparável da administração das relações públicas (ou daquilo que irei chamar, num próximo capítulo, de “administração da visibilidade”). Mas se examinarmos o argumento de Habermas mais cuidadosamente, veremos que há sérias fragilidades. Em primeiro lugar, a argumentação de Habermas tende a presumir, de um modo muito questionável, que os receptores dos produtos da mídia são consumidores relativamente passivos que se deixam encantar pelo espetáculo e facilmente manipular pelas técnicas da mídia. Nesta presunção, Habermas afirmou sua dívida para com a obra de Horkheimer e Adorno, cuja teoria da cultura de massa forneceu parte da inspiração para sua própria explicação. Hoje está claro, todavia, que este argumento exagera a passividade dos indivíduos e aceita muito facilmente tal passividade no processo de recepção. Suposições deste tipo devem ser recolocadas dentro de explicações mais contextualizadas e hermeneuticamente sensíveis à recepção individualizada dos produtos da mídia: como eles as recebem, usam e incorporam em suas vidas. (THOMPSON, A mídia e a modernidade, p. 109)
Desse modo, torna‑se compreensível que as mídias não sejam o problema total, mas que a questão central seja a forma como a sociedade opta por recebê‑las: de modo extremamente passivo ou com um alerta de criticidade em mente.
3. Considerações finais
O ambiente tem influência total, e quem faz o ambiente são as pessoas. A massa é constituída de indivíduos, daí a importância de o ser humano buscar sua melhoria pessoal, para que, em meio à multidão, não seja levado pela influência do ambiente, como Blumer bem enfatizou.
Daí surge a urgência de o jornalismo não ceder a tal influência, mas se tornar diferente. A arma mais poderosa é o conhecimento e, utilizando a informação, a sociedade pode voltar a pensar por si própria e voltar a “andar para frente”.
Esta pesquisa trouxe a definição de massa e mostrou como os seres humanos, por si próprios, têm autonomia para escolher entre ceder ou fazer uma análise crítica do que recebem. Foi importante ressaltar que a função de um jornalista na sociedade é levar informação de maneira que nada seja adulterado e que não se use dessa informação para influenciar de forma negativa, levando o ser humano ao estado de passividade.
Referências
- ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. A indústria cultural: o esclarecimento como mistificação das massas. In: ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento. Tradução de Guido Antônio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. p. 57‑79.
- BLUMER, Herbert. A massa, o público e a opinião pública. Tradução de Sergio Miceli. In: COHN, Gabriel (Org.). Comunicação e indústria cultural. 5. ed. São Paulo: T. A. Queiroz, 1987. p. 177‑186.
- THOMPSON, John B. A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia. Tradução de Wagner de Oliveira Brandão. Petrópolis: Vozes.